sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Eleições para a Câmara de Mortágua há 120 anos atrás

“Senhores: As eleições em Mortagua fazem-se ha tempo como se não houvesse povo; dois ou tres homens sem a minima orientação da arte do governo, dão para alli uns quartilhos de vinho a estes infelizes que por isso se levam e fazem o que lhes apraz.

Amanhã é a eleição da Camara; eu hei de lá ir protestar com o meu voto contra um estado de coisas que se me afigura desastroso; hei de votar por modo que elles fiquem convencidos que por aqui ainda ha corações que pulsam ante as ideias grandes; e desejarei ser acompanhado na minha resolução.

Mas que fique bem acentuado que eu não peço votos, que ninguem me faz favor em ir lá e que de modo nenhum me sentirei com quem lá não fôr.

[…] AquelIes que entenderem que as coisas vão bem, que tudo corre como deve correr, é favor não irem lá; e os que acreditarem, como eu, que o nosso protesto nos fará algum beneficio para o futuro, lá acharão papel, penna e tinta para fazerem suas listas ...

- O sr. professor Francisco Cordeiro: Mas assim divide-se a votacão e não se vence de modo nenhum. . .

-O sr. Regedor Antonio Ferreira: E' verdade, precisamos votar unidos e vamos já escolher em quem ha de ser.

- O sr. Francisco Neves: Pois sem a união pouco resultado dava o nosso trabalho.

- Dava Muito. Nós não vencemos a eleição; vamos só ensinar aquella gente como votam homens livres e como ainda por aqui os ha; vamos protestar contra o estado tenebroso que elles, em proveito da bolsa de uns, do egoismo d'outros, da basofia d'alguns e da desorientacão scientifica de todos - firmaram na ignorancia popular que elles desenvolvem.

Eu por mim não transijo; votarei uma lista completamente feita á minha vontade; porém os senhores sigam a sua opinião.

Nesse caso, o sr. Antonio de Mattos, por ser o mais velho, vote primeiro.

- O sr. Antonio de Mattos: Eu já perdi a fé, não voto; por vezes quizemos metter e até já mettemos gente d’aqui na Camara e os da villa sempre fizeram o que quizeram.”

Palavras proferidas por Manoel Ferreira Martins e Abreu na reunião popular do dia 2 de Novembro de 1889, em casa do sr. António Ferreira dos Reis, regedor da freguesia da Marmeleira.

in

Coisas de Mortagua no ultimo quartel do século XIX / Manoel Ferreira Martins e Abreu, Coimbra : Typ. Operaria, 1890, pp. 44-46.

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